aí estava
de Nuno Messias
 
aí estava
um pântano de estrelas
luz vertida viscosamente
através de um ínfimo buraco
quase milagroso
atravesso o mel espesso
de todas as catástrofes
fazendo de pastor
o meu rebanho de espelhos
pasta indiferente
e o cāo este que me trouxe
cego por condiçāo
mima o desajuste
o estilhaço a derrisāo
aí estava
uma voz pântano cantando
às vezes só às vezes em coro
às vezes muitas vezes só muito só
sem sequer a companhia de uma cicatriz
à qual
na nocturna passagem do canto
acariciar
embalar
sussurrar as fórmulas e encantos do desquerer
enfim
nāo serei eu
voz tosca e algo lerda
anunciante de nefastos sintomas
nem tāo pouco virá de aqui a habilidade do nojo o fino cálculo do luto
se no final de tudo isto
ainda houver
algo que contar
aí estava
esteve
estará
trovador de despojos
imperador coroado de abutres e moscas
o poeta
registando
sílaba a sílaba
perguntando
qual é a pergunta

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