O céu desprepara-se todos os dias dos seus preparos do dia anterior.
Ninguém se preparou para as suas formas e cores. Não se sabe a que horas amanhã as nuvens se vão alinhar no mesmo sitio.
A que horas voltam? Voltem a colocar-se aí. Preciso de coerência. Preciso de horas, de saber que horas são. Não desalinhem, coloquem-se aí como pintei.
Não sabem que as olho ou fotografo. Não querem saber.
Falam comigo em línguas diferentes a cada hora e mudam-me as cores dos olhos.
Dizem que voltam, é a única segurança que deixam. Despreparam-me para me preparar de novo, e estar despreparada para as receber à janela no dia seguinte.
A preparação acaba nos prédios esbranquiçados.
O desejo de as encontrar por breves instantes para que a esperança na continuidade se mantenha.
As nuvens passeiam pela esperança, pelas janelas e pelos quadros por pintar.
Não deixam rasto. Não deixam cheiro.
Passeiam livremente e permitem-nos beijá-las através dos lábios uns dos outros.
Choram-nos em cima e por dentro.
Preparam-nos para o calor, para o frio. Despreparam-nos quando tapam o sol ou quando a tristeza lhes chega de repente.
Não pensam em quem olha para elas.
Não pensam.
Refletem o que os corações apaixonados, tristes e cansados não conseguem preparar-se para sentir.
Preparei-me apenas para as ver todos os dias,
E se não voltarem,
Voltarei a despreparar-me.

Filipa Madeira

 

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  1. Muito bom.
    Belissimo texto, com fluidez poética e muito abstraido na Vida espontânea que nasce das nuvens, e se projeta no céu para vislumbre de quem tem o olhar suspenso, focado nas formas e côres que só a natureza e os reflexos de luz conseguem.
    Parabéns Filipa.
    Adorei também as Fotos.

  2. Adorei o texto! Simples, poético, belo de uma profundidade sublime.
    Parabens, Filipa Madeira!

  3. Muitas vezes dou por mim a olhar as nuvens, os seus movimentos, as suas formas e viajo por tantos sítios…
    Ao ler o teu texto viajei e sorri!
    Gostei muito!
    Beijinhos, querida Filipa!

  4. Obrigada pela partilha do teu texto.
    Pintas com palavras uma tela de esperança é devir !
    Muito bem escrito; com uma imagética e dança de palavras e sentidos em perfeita sintonia.
    Que a criatividade e a força criadora te inspire para nos continuares a inspirar.

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