Quotidiano do assombro. #A casa. 23 de março

Comecei a aceitar os mais diversos conselhos. O artista russo Kiril Serébrennikov, que esteve vinte meses em prisão domiciliária, deu dez sugestões sobre como resistir numa quarentena. Uma delas propunha respondermos à pergunta “Quem sou?” e fazer uma lista do que é mais importante na nossa vida. O meu corpo, incrustado no selvagem presente, já não tem diários dos sonhos para as memórias do futuro, e quem sou é um espelho baço que rodopia. Procurei então listar a minha memória das casas, antes que estas – a minha memória e as casas – desapareçam no futuro.

A casa é onde apontamos ao caos e nos atiramos. Sabemos que a escuridão entrou quando não há nenhuma luz, nenhum som, em nenhum quarto. Então percebemos a onça rondar cada vez mais perto. Podemos sentir o seu bafo na cozinha. Basta alguém ter estado a menos de um metro de uma febre e logo o epicentro do coração não sabe respirar.

A casa é onde se empurra para a terrível banalidade e para a delicada rotina as multidões dos fantasmas. É ali, onde nos ronda a morte de seu alto e a vida em toda sua baixeza e esplendor, que a tudo nos adaptamos. Também nos adaptaremos à onça e adaptaremos a casa à onça. O fundo prateado que poderá iluminar a nuvem negra é a possibilidade da onça fazer a reconstrução que a Casa, ciclicamente, nos implora. A casa são três buracos no tecto e duas fendas longas na parede. É a gaiola por onde os pássaros nos observam. Um mapa, onde ao mais puro desenlace estremecemos e a cada erro no caminho olhamos para trás.

A casa é a minha filha. É a tempestade perfeita da iniciação dos teus olhos. É onde o café cheira à mãe e ao pai e às irmãs e às amigas e aos amigos. É a lista das vinte músicas que deixaste para eu ouvir enquanto estivesses longe. É onde às três da manhã chega pontual o pássaro. É o barulho do teu peito insone nas minhas costas. O riso é uma casa. É a garrafa de gás que esvazia exatamente quando estou a tomar duche. É um sofá aberto, oh, um sofá aberto. É ver, nas pálpebras fechadas, o laranja desmaiado do sol.

Casa é estupor e amor. É onde se estrangulam as mulheres e às vezes as outras pessoas. É ali, onde há abundância e fome e facas que atravessam. Em muitas há caves de mentiras cuspidas nos sonhos como arquétipos. Há casas inquinadas, procurando boiar em pântanos insalubres, e casas que ressuscitam todas as manhãs. As casas têm agora quartos de confinamento e rituais incríveis como esfregar as maçanetas, os polegares, os interruptores de luz, que rapidamente se tornam normais.

Para as casas não morrerem é preciso gente. Repositoras de supermercado, carteiros, recolhedores do lixo, condutoras de camiões e de portos e de aviões, milhões de empregadas domésticas – às vezes chamadas mães, alguém que tire o peixe do mar e segure a fruta nas árvores, e alguém que cuide de nós.

Nos campos lá longe – tão perto – a casa é uma tenda ao abandono, sem água nem luz. Sobrevoam os campos os abutres de sempre. O FMI já tem um plano de austeridade para quando a tormenta passar, as fronteiras fecharam o último pingo de dignidade, os bancos abrem linhas de crédito para a loucura. Não se vislumbram as doações das igrejas.

Na casa, faço greve geral aos ratos – todas as outras estão proibidas -, decido que vou deixar de fumar, para logo recuar ao mais acomodado de mim. Apesar disso, duas horas por dia desligo o ruído imparável dos bites e deixo o resto da vida entrar. Anteontem, a Nina Simone ofereceu-me duas lágrimas e a memória do longínquo prazer. Na noite escuríssima, ouvi-a cantar para o céu.

As casas as casas, dizia o Ruy Belo a sorrir. Talvez ele também tenha visto, pela primeira vez, o meu vizinho de pantufas e de robe na rua a passear o cão.

Pintura. Vilhelm HAMMERSHØI, Interior with two candles, 1904.

Judite Canha Fernandes

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