Este ano, durante o período de confinamento devido à pandemia da Covid-19 e à subsequente impossibilidade de retomar a minha actividade, concorri a uma bolsa de trabalho promovida pela Associação Parasita que pretendia responder a este período de imprevisibilidade, lançando um apoio “para artistas independentes das artes performativas converterem o seu trabalho criativo em tempo de análise, organização e catalogação dos seus arquivos pessoais.”
Mergulhei então no meu arquivo, a maior parte dele ligado à concepção de peças coreográficas. E esse mergulho permitiu-me olhar para trás. Olhar para a meu percurso, para essa constelação de experiências feitas de encontros com pessoas e com lugares, feita de projectos com seus desejos, suas questões e divagações. E olhar para os projectos, é olhar para os seus processos: cartas de intenções, textos e imagens de pesquisa, cadernos de notas, vídeos de ensaios, e tantos outros materiais que vão sendo produzidos, mas que normalmente ficam na invisibilidade em detrimento da apresentação de um objecto final, da escolha do que é tornado público ou não, daquilo que se torna o espectáculo.
Constato que há uma riqueza e uma complexidade que por vezes se perde neste processo, ou melhor, denoto que eu eventualmente tenha alguma dificuldade em processos de selecção, naqueles que se deve aprimorar por uma equação sólida, acutilante e até sagaz do que foi toda uma procura de outros saberes e de outros lugares. No entanto, todos esses desdobramentos mais ou menos divergentes ou aleatórios são fundamentais, são inerentes a uma procura. Marcam presença: existiram e existem como formas de rever obras e de as re-situar, e de sobretudo nos permitir entender um pouco mais quais seriam essas matérias de várias ordens que nos habitavam. Tanto por se afirmarem como profundos interesses num determinado momento, tanto por se poderem ainda afirmar como potências por vir.
Neste sentido, para esta exposição escolhi apresentar materiais que fizeram parte do processo de criação do trabalho “This Kiss to the whole world”(1), uma colaboração com Antonia Buresi e com Caroline Masini, Gérald Kurdian, António Mv e Carlos Ramos, com produção L´equipe de Nuit e co-produção de Collectivité Territoriale de Corse, Ville dʼAjaccio e O Rumo do Fumo.
A forma final espectáculo foi estreado a 23 e 24 de Março de 2013, em Ajjacio na Córsega, e nunca mais foi apresentado.
(1) Este título faz referência ao último fresco do friso” Sucession” de Klimt, realizado a partir da 9º Sinfonia de Beethoven.